Pequenas memórias à volta das maratonas da Primavera

Manuel Matias

As mais mediáticas competições na distância de maratona acontecem em abril, as denominadas maratonas da primavera. 

Na próxima segunda-feira realiza-se a mais antiga das maratonas, a de Boston, que vai para 130.ª edição. Criada em 1897 (19 de abril), praticamente um ano depois da primeira maratona dos Jogos Olímpicos da Era Moderna (10 de abril de 1896). Tem uma história incrível e a portuguesa Rosa Mota foi uma das poucas a repetir triunfos e fê-lo três vezes: 1987, 1988 e 1990. Para além disso, conta com a realização anual ininterrupta (a exceção foi 2020, ano da pandemia). Até 1968 realizou-se sempre a 19 de abril, mas a partir desse ano passou a realizar-se no feriado do Dia do Patriota de Massachusetts (terceira segunda-feira de abril).

Ali aconteceu a primeira participação feminina (1967), Kathrine Switzer, quando era proibida a corredoras (mas inscreveu-se com o nome "K. Switzer"); conheceu a primeira fraude, por Rosie Ruiz, que em 1980, correu menos um quilómetro; conheceu vencedoras desclassificadas por doping; conheceu como vencedor, em 2018, um corredor amador, Yuki Kawauchi, professor de profissão, num ano em que a corrida se disputou debaixo de chuva intensa e temperatura de -6 graus centígrados (por outro lado, em 1905 foi disputada debaixo de calor arrasador: 37,8 graus); em 1996, a sua histórica 100.ª edição foi transmitida ao vivo pela televisão para mais de quinhentos milhões de espectadores em todo o mundo e teve a participação recorde de 38 708 atletas; em 2013 foi alvo de um atentado terrorista. No próximo dia 20, mais trinta mil corredores continuarão esta história.


Mas as maratonas da Primavera já começaram


No fim-de-semana passado disputaram-se as maratonas de Paris e Roterdão, ambas com tradição portuguesa, quer a nível de elite, quer a nível popular. A nível popular, recordo, quando estive ao serviço de A Bola, presenças de trabalhadores das autarquias do Seixal, que tinham um intercâmbio com funcionários neerlandeses para presenças em atividades desportivas nos dois países. Gente espetacular, com quem convivemos nesses dias. 

Numa das ocasiões, em 1995, estava lá para dar notícias da prestação dos melhores portugueses. Nesse ano, Domingos Castro triunfou na prova (e jantámos todos num restaurante de portugueses, de nome Vasco da Gama – que fizeram a fineza de sempre nos apoiar na nossa estadia), com uma marca extraordinária (2h07m51s), ainda hoje a quarta melhor de sempre de um atleta português. Fizemos a entrevista pós-prova no corredor do hotel da organização, enquanto o atual presidente da Federação Portuguesa de Atletismo aguardava o controlo anti-doping.

Domingos foi o quarto português a vencer em Roterdão, depois de Rosa Mota (em 1983, na terceira edição da maratona), Carlos Lopes (1985, então com recorde mundial) e Aurora Cunha (1992). 

Curiosamente, dois destes quatro, Aurora e Domingos, venceram também a maratona de Paris, a segunda protagonista das maratonas que aqui recordamos. Ele venceu em 1995, no que foi seguido por Henrique Crisóstomo (vencedor em 1996), ela triunfou em 1988 e foi protagonista de uma linda história, pois o seu treinador, o professor Fonseca e Costa, também era o treinador do vencedor masculino desse ano, Manuel Matias. Nunca tal acontecera, nem voltaria a suceder. Mas, para além disso, os dois atletas ficaram ligados por uma história de bastidores. Recém integrado no Sport Lisboa e Benfica, Matias foi para Paris sem um equipamento adequado para maratona, mas Aurora Cunha, conseguiu-lhe uma camisola adequada e na véspera coseu o emblema do SLB na camisola de Matias. 

Curiosamente, Manuel Matias venceu essa prova em 2h13m54s, exatamente a mesma marca que atualmente é recorde dos campeões masculinos portugueses de maratona e foi alcançada por Rui Pedro Silva na maratona do Porto em 2014!


Com base nos dados do livro “Cem Anos de Maratona em Portugal”, por António Manuel Fernandes, editado pela Xistarca em 2010


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