Uma evocação histórica, com Guerra e a “Lebre”


O meu amigo Rafael Lopes, no seu projecto muito especial “Lebre” (http://www.revista-lebre.com/), lançou o oitavo número da revista digital com o mesmo nome. Dois assuntos ali focados que me trazem recordações. Um deles, mais secundário, tem a ver com essa figura da corrida, Ron Hill, “primeiro atleta britânico a vencer a maratona de Boston, em 1970, participando em três Jogos Olímpicos (de 1964 a 1972) e correu pelo menos uma milha (1609,344 metros) por dia, desde 20 de Dezembro de 1964”, lê-se no texto. Ron Hill parou no dia 29 de Junho de 2017, 19032 dias depois. Calcular-se que terá corrida uma distância semelhante a seis voltas e meia ao planeta!
A minha primeira memória sobre Ron Hill remonta-se a 1990, ano em que estive em Londres para a promoção da Maratona de Lisboa (a primeira competição a promover-se nas grandes maratonas internacionais). Na feira do corredor, Ron Hil, estava no seu espaço de promoção e venda do material desportivo com a sua marca. Estava em Londres com a companhia de um campeão olímpico, que não se sentia confortável a falar inglês e ao passarmos naquele espaço promocional, esse campeão vira-se para mim e diz-me “tens que me ajudar a pedir um autógrafo dele!». Fiquei de boca aberta, eu não conhecia Ron Hill, nem a sua história, naquela altura. Porque é que um campeão olímpico queria um autógrafo de alguém que nunca o foi? Lá fui, pedi o autógrafo e mal falei no nome do meu companheiro naquela iniciativa ele levanta-se do banco e corre a abraçá-lo. Nunca me esquecerei daquele momento com Ron Hill e... Carlos Lopes, ele mesmo. E, querem saber, perdi a oportunidade de ter um autógrafo dos dois! Se fosse hoje, não faltaria a foto, no “face”, “insta” ou “twit”.


A colina do desespero, aqui assinalada


As outras memórias têm a ver com a evocação da capa, que não podia ser mais feliz, quando estamos a três dias do Mundial de Corta-Mato, outrora uma competição que mobilizava a generalidades dos meios de comunicação social. A evocação dele ocorre dias antes de se completarem 18 anos após a conquista da medalha de bronze no mundial de Belfast, na Irlanda do Norte (28 de Março de 1999), o maior feito da carreira (pese embora os seus seis títulos europeus e cinco medalhas de prata na mesma competição!)desse extraordinário atleta barranquenho, Paulo Guerra!
A primeira memória, péssima, vem desse dia glorioso. Eu estive em Belfast, em tão ao serviço de A Bola. Já tinha assistido a bons desempenhos tugas nas outras corridas, Já estava cansado e subir e descer uma colina sem condições, relvada, sem condições para tal, mas que tínhamos que transpor para não perder as palavras dos nossos compatriotas.
A corrida do Guerra foi memorável (bem retratada na revista pelo Rafael). E no final, a correr para apanhar o “queniano branco”, como ficou conhecido em toda a Europa (e em África!), naquela fatídica colina, escorreguei e para tentar evitar males maiores fiz uma luxação do braço. Fui o único a abandonar aquele local, gelado e todo molhado da chuva, em ambulância. Já não consegui falar com o Guerra e toda a reportagem anterior estava no meu gravador. No meio das dores e depois da anestesia, com a ajuda de todos os membros da comitiva, lá consegui enviar o que tinha, e “sacar” pelo telefone, o que não tinha (Paulo Guerra), para o serviço poder ser editado.
A segunda memória tem a ver com a “aparição” do Paulo Guerra. Antes de 1989, ninguém tinha dado por ele. O barranquenho tinha começado a correr pelo GD Diana (1988) e no ano seguinte estava no Arraiolense. Nesse ano de 1989, a Associação de Atletismo de Lisboa conseguiu chamar a si a realização do Campeonato Nacional de Corta-mato masculino, fruto de forte empenho da Câmara Municipal da Amadora e do então Regimento de Comandos (hoje de Lanceiros). Estes campeonatos, já agora, terão sido dos mais simples de organizar, já que existiam todas as condições em termos de infra-estruturas, desde a pista, toda desenhada e produzida pelos militares (e que ainda agora é respeitada!), até aos balneários, salas para doping, secretariado, etc. Nada de tendas. Tudo edifícios.
Pois nesse campeonato, em que um célebre amigo, Ezequiel Canário, então no Imortal de Albufeira, venceria pela segunda vez consecutiva, nas provas para os mais jovens surgiam novidades. Em juvenis, venceu Júlio Figueiredo, do CDC Seia (que venceria em juniores, em 1991, já pelo FC Porto), individualmente, e colectivamente venceu uma equipa de Vila Franca de Xira, o Agruela, que tinha a liderança de um jovem treinador, Osvaldo Apolinário.
Mas vamos agora ao que interessa. De rompante, tal como em Belfast, 10 anos depois, um jovem alentejano com um equipamento amarelo, naquele percurso bem selectivo, impunha-se com um andamento forte, robusto e ao mesmo tempo leve e dinâmico. No final, com uma vitória categórica, Paulo Guerra dava-se ao conhecer ao Mundo. Na Amadora.
No ano seguinte o barranquenho passou para o Sporting e pacientemente cumpriu várias etapas da sua carreira, conseguindo o primeiro dos seus cinco títulos nacionais em 1995.

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